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sábado, 11 de junho de 2011

Memória FC: o dia em que o Mengão virou time pequeno

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Ganhar Fla-Flu é normal... #NOT!!

Tão genial quanto provocador, Renato Gaúcho nem sempre se deu bem com declarações polêmicas - recebidas com entusiasmo pela mídia sensacionalista e com ódio por torcedores não-sensatos (se é que existe torcedor sensato, como sagazmente questiona a turma do Blablagol).

Entre as milhares de caneladas verbais disparadas pelo raçudo ponta gaúcho, uma das mais sensacionais ocorreu no tumultuado Campeonato Carioca de 1990. Com o Flamengo fazendo boa campanha no segundo turno daquele estadual,às vésperas de um Fla-Flu, Renato Gaúcho manda um petardo mezzo verdadeiro mezzo provocador em direção à Laranjeiras:

"É um timinho, não tem jogadores para ameaçar uma vitória. É um estilo que adota há vários anos e a culpa é toda da diretoria, que nunca contrata bons jogadores. Vão ver o que é bom pra tosse. Agora, se eles acham que isso é menosprezo, que provem em campo"

Diante da repercussão negativa, Portaluppi dá uma pipocada - coisa rara em sua trajetória futebolística - e tenta amenizar as coisas, afirmando que o Fluminense era um time médio. É claro que a água para apagar o incêndio só serviu para levantar a fervura do clássico disputado em 8 de abril de 1990.

Quem pagou pela língua ferina de Renato foi o Maestro Júnior - que, mal escalado na zaga por Valdir Espinosa, falhou no gol que decidiria o dérbi em favor do Tricolor.  O placar de vitória mínima não dá o tom do que foi a partida, com um Flu pilhado ganhando todas na defesa, perdendo chances atrás de chances no ataque (capitaneado por Sérgio Araújo - quem?) e com torcedores saindo em êxtase aos gritos de "Eô, eô, o timinho é um terror"

Com o triunfo, o time das Laranjeiras assumiu a ponta da Taça Rio, de forma isolada, a dois pontos do Fla. E não bastasse o humilhante chapéu que tomou do limitado lateral Luciano durante o jogo, Renato ainda tomou uma vaca verbal do elegante zagueiro Alexandre Torres (sim, o filho do Capita).

"Segundo o Renato, o Fluminense não é time pequeno, é time médio. Só tem dois times grandes nesse campeonato, o Vasco e o Botafogo, que estão na nossa frente. Quem está atrás é time pequeno"

O Botafogo acabou levando o bi, enquanto o Fla terminou em quarto... logo atrás do Fluminense.  

* Post baseado no livro "Anjo ou Demônio: a Polêmica Trajetória de Renato Gaúcho", de Marcos Eduardo Neves.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Memória FC: Cinco mortes que abalaram o futebol brasileiro

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#5 Figueiredo

Em seu último jogo, Figueiredo usou a camisa 10, de Zico

Quase uma anônimo em meio a feras do calibre de Zico, Júnior, Leandro, Andrade, Mozer, Tita e Adílio, Cláudio Figueiredo Diz - ou simplesmente Figueiredo - era peça importante naquele elenco rubro-negro. Se jamais fora titular absoluto da zaga do Fla, Figueiredo sempre cumpriu com dignidade o papel de substituir à altura seus companheiros de zaga, tendo boa participação nos primeiros dois jogos da final da Libertadores de 1981. O destino encerrou sua carreira prematuramente, aos 23 anos, num acidente de avião (que também vitimou o irmão e procurador de Bebeto), em 20 de dezembro de 1984. A morte do beque rubro-negro envolve certa mística: em seu último jogo pelo Fla, em 1° de dezembro daquele ano, acabou vestindo a camisa 10 eternizada por Zico, um número improvável para um zagueiro e talvez uma singela homenagem dos Deuses do Futebol.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Memória FC: o incêndio de Valley Parade

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Brasil para Inglaterra: "Eu sou você ontem"

A organização exemplar em torno dos jogos de futebol na Inglaterra tem origem no caos que emergiu em campos europeus no início dos anos 1980, com a ascensão do hooliganismo, que há pelo menos duas décadas já fazia barulho nos porões da Ilha. O estado de desorganização e pouco caso com o torcedor durante os dias de jogos mostrou o seu lado mais cruel em 11 de maio de 1985, no Estádio de Valley Parade.

Num raro sábado sem chuva inglês, 11.076 torcedores se reuniram para acompanhar a partida entre Bradford City e Lincoln City, que marcava a festa da conquista da então terceira divisão inglesa pelo Bradford (e sua promoção à segunda divisão). O jogo seguia empatado sem gols até os 40 minutos do primeiro tempo, quando os primeiros sinais de incêndio começaram a chamar a atenção do público. Percebendo a gravidade da situação, o árbitro Dom Shaw paralisou a partida poucos minutos antes do intervalo para que os policiais pudessem evacuar a arquibancada principal, que já ardia em chamas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Memória FC: o gol mais triste da história

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 Denis Law, entre George Best e Bobby Charlton: herói e vilão do Manchester United
(Foto: AtilaTheHun)


 Atacantes como Edmundo e, recentemente, Fred já se viram diante da complicada situação de marcar contra seu time de coração. Em meio às discussões de comemorar ou não o gol, da suposta falta de respeito com o clube que paga o salário ou mesmo de uma questionável espontaneidade na atitude, o sentimento de identificação e amor com  as cores de uma agremiação - tão cobrado pelos críticos do futebol mercantilizado de hoje - acaba ficando para trás.

Não há, por exemplo, como discutir as genuínas lágrimas do argentino Gabriel Batistuta ao balançar as redes da Fiorentina (equipe que aprendeu a amar, inclusive recusando propostas de grandes clubes para defender a Viola na segunda divisão do calcio). Nada no entanto se compara ao que o destino reservou ao avante escocês Denis Law: selar o rebaixamento de seu time de coração. 

Na temporada de 1973/ 1974, depois de quase ter caído dois anos antes e de perder jogadores do quilate de Bobby Charlton, George Best e do próprio Denis Law, o Manchester United mais uma vez se viu às voltas com o fantasma do descenso. Quiseram os deuses do futebol que o jogo decisivo para as pretensões dos Reds na primeira divisão inglesa fosse o derby contra o Manchester City.

Em clara decadência técnica e sofrendo com velhos problemas nos joelhos, Law foi contratado pelo City após o fim de seu vitorioso ciclo de nove anos no Manchester United. O jogador optou pelo arquirrival (clube que defendeu anteriormente, inclusive) porque sua família já estava adaptada à cidade de Manchester. A temporada irregular vestindo a camisa azul foi coroada num dos últimos jogos do campeonato, justamente no clássico local.



Denis Law decretou o rebaixamento do United ao marcar um belo gol, aos 36 minutos da etapa complementar, em plena Old Trafford. O artilheiro se recusou a comemorar o golaço e visivelmente abalado emocionalmente foi substituído.  Como última cartada, os torcedores dos Reds ainda invadiram o gramado na vã tentativa de anular o jogo. Mas o resultado foi mantido e o Mancheter United - que seis anos anos antes conquistara a glória máxima ao ser campeão europeu - rebaixado.

O atacante escocês, que pendurou as chuteiras após o fatídico jogo, certa vez declarou sobre o feito: "Raramente fiquei tão abatido em minha vida como naquele fim-de-semana. Depois de 19 anos dando tudo de mim para marcar gols, eu finalmente marquei um que quase desejei não ter feito".

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Memória FC: "Eu e o futebol" - o livro maldito de Almir

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“Sujo do começo ao fim”. As duras palavras com que o diário O Globo definiu o ex-jogador Almir Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, traduzem a mágoa com o homem que desmascarou o axioma maior do futebol brasileiro. Afinal, nem o Santos dourado de Pelé escapou das revelações de Almir, no biográfico livro "Eu e o futebol". As denúncias sobre doping e compra de juízes feitas pelo atleta estão na poeira do passado, mas ajudam a explicar o presente, em que tudo é visto como mera coincidência, com árbitros "errando para os dois lados".

Deve ser duro para o brasileiro que acompanha o esporte e desde cedo foi bombardeado pela falsa imagem do futebol nacional limpo e bem jogado. Ladrões, milongueiros, canalhas e violentos sempre foram nossos hermanos. Não falta gente para reclamar da suposta manipulação argentina na Copa de 1978, mas não há qualquer desencargo de consciência sobre o que aconteceu dentro e fora de campo no Mundial de 1962 (conquistado na bola, no apito e na marra pelo país do futebol). Fica a cargo da coincidência o fato de todos os árbitros que mediaram os três primeiros títulos mundiais da Seleção terem passado, pouco depois de cada apito final, férias no paraíso tropical brasileiro?

Com Almir, sujo do começo ao fim, o torcedor mais pueril tomou um tapa na cara. Bom jogador, o ex-atacante também prestou serviços valiosíssimos ao ludopédio tupiniquim, colocando a cabo a fama de amarelão que perseguia o brasileiro. João Saldanha escreveu no prefácio do livro de Almir, "era comum dizerem, lá pela Argentina e pelo Uruguai, que com qualquer três gritos eles ganhavam da gente". Não depois do Sul-Americano de 1959, em que o boleiro protagonizou uma das maiores guerras campais da história, num jogo contra o Uruguai (valentia que despertou admiração dos argentinos por Almir e Paulo Valentim - posteriormente contratados pelo Boca Juniors). Segundo Saldanha, depois daquela partida "os uruguaios nunca mais falaram em machismo, covardia, valentia, essas coisas, pra cima da gente".

A pecha de maldito veio com as revelações de Pernambuquinho após encerrar a carreira. Só um cara valente como Almir para romper com as convenções da crônica esportiva e revelar toda a sujeira dos bastidores da bola. Um dos principais alvos não poderia ser mais simbólico: o Santos da década de 1960 - um dos maiores patrimônios do futebol brasileiro. Sem meias palavras, o jogador escancarou o que aconteceu fora de campo na decisão do Mundial Interclubes, entre Santos e Milan, em 1963: "nós ganhamos na raça, na catimba. Se houvesse mais tempo de jogo, uma prorrogação ou até mesmo um terceiro tempo de 45 minutos, nós ganharíamos do Milan. Alfredinho sabia disso: com a bolinha que ele nos tinha dado, o Santos tinha energia para continuar jogando até agora".

O doping não foi o único recurso lançado mão pelos dirigentes santistas para conquistar o bicampeonato mundial. Mesmo com um time reconhecidamente espetacular, os cartolas alvinegros trataram de negociar um auxílio extra com o árbitro argentino Juan Brozzi. Os italianos, que já suspeitaram da atuação do mediador no primeiro jogo, tiveram de engolir a seco a parcialidade no apito. E Almir fez o que quis no campo: jogou bola, bateu e apanhou muito, além de cavar o pênalti que garantiu o título.

O caso do Santos é emblemático, mas não é o único revelado em "Eu e o futebol". Em pouco mais de 100 páginas são retirados outros esqueletos do armário do futebol nacional. Para adoradores de teorias de conspiração, o livro de Almir acabou selando sua morte, pouco tempo depois, num assassinato mal explicado, com jeito de queima da arquivo. A obra do jogador, no entanto, é um legado que ajuda a explicar o futebol de hoje e de ontem.

Fora de edição, o livro só é achado em sebos, com alguma sorte. O segundo capítulo na íntegra, sobre o jogo Santos e Milan, pode ser baixado aqui.



sábado, 18 de abril de 2009

Memória FC: Dez injustiçados em Copas do Mundo

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Ser preterido ou rejeitado em qualquer aspecto da vida humana não é fácil. Lidar bem com a experiência de ficar em segundo plano ou ser esquecido é uma dádiva concedida a pouquíssimos mortais. Há três tipos de reações esperadas de alguém que vive esse tipo de experiência: ser político; ser polido; ou chutar o pau da barraca. O jogador francês Vikash Dhorasoo preferiu fazer um filme.

Substitute, de 2006, retrata o inferno particular do meia na Copa do Mundo da Alemanha, onde esteve em campo por decepcionantes 16 minutos. O filme, rodado em primeira mão com a ajuda do escritor francês Fred Poulet, é um retrato da frustração, sentimento de traição e raiva crescentes do jogador, preterido a cada jogo pelo técnico francês Raymond Domenech. Dhorasoo era reserva imediato de Zinedine Zidane.

Depois do filme, Dhorasoo foi tratado como traidor pelos companheiros de equipe
(Divulgação)

A experiência amarga vivida pelo projeto francês de cineasta é algo costumeiro na Seleção Brasileira. A cada Copa do Mundo sempre há um ou dois nomes injustiçados, que ficam de fora ou, se convocados, viram meras testemunhas oculares do maior evento do futebol mundial. Situação mais frustrante do que a de Dhorasoo, por vezes, já que nem sempre o preterido tem à frente alguém com o prestígio de Zidane. Num exercício de cultura inútil, a lista dos boleiros mais injustiçados é de qualidade. E olha que muita gente boa - mais uma vez - foi esquecida.

#10 - Edmundo

Apesar de jamais ter feito uma atuação redentora ostentando a camisa da Seleção e da temporada de altos e baixos na Fiorentina, Edmundo acabou recompensado com a convocação para a Copa da França após o impressionante 1997, comandando o ataque vascaíno. Mesmo com a saída de Romário, cortado por uma contusão controversa, Animal ficou na reserva, preterido por um Bebeto em fase descendente e pelo fraco Denílson. Para piorar, quando teve sua chance de ouro, ao substituir Bebeto no segundo tempo, contra Marrocos, o Animal errou tudo que tentou, protagonizando lances bisonhos e abaixo da crítica. O pior estava por vir: teve a chance de ouro de ser titular na grande final diante da França tirada de suas mãos já no vestiário, após o misterioso problema de Ronaldo Nazário. Pelo menos conseguiu entrar no segundo tempo e assistir de perto um dos maiores vexames do Brasil em Copas.


#09 - Julinho Botelho

O bonachão técnico Vicente Feola quando perguntado sobre quem era melhor, Garrincha ou Julinho Botelho, não titubeava: Julinho era melhor. O forte caráter do ponta da Fiorentina, cujo apelido escondia os 1,80 metros de bela estirpe futebolístca, fez com que renunciasse à convocação para a Seleção que iria à Suécia, na Copa de 1958, por não concordar em tirar a vaga de jogadores que atuavam no Brasil. Acabou cortado pelas próprias convicções. Sentiu pouco mais tarde, entretanto, o gosto amargo da rejeição, ao ouvir em maio de 1959 um Maracanã lotado o vaiando, num amistoso contra a Inglaterra. O motivo? Garrincha, a alegria do povo e um dos heróis da Copa, estava no banco de reservas, preterido por Julinho. O ex-jogador da Portuguesa deixou de lado os gritos por Mané e as lágrimas que ameaçavam cair, resolvendo mostrar no "couro" que não estava em campo por acaso. Com menos de dez minutos de jogo, o ponta fez dois gols que selaram placar definitivo daquele encontro, transformando vaias em aplausos e escrevendo uma das mais deliciosas histórias do ludopédio tupiniquim.


#08 - Emerson Leão

Titular em dois mundiais e integrante do elenco de 1970, Emerson Leão foi um dos melhores goleiros já revelados em solo brasileiro. Seguro, às vezes brilhante e outras tantas polêmico, o arqueiro colecionou ao longo da carreira admiradores e desafetos com a mesma facilidade. A personalidade polêmica ia de encontro ao jeitão desconfiado de Telê Santana, fechado com jogadores que eram a antítese perfeita do goleiro, como Sócrates. Curiosamente, tão logo Telê assumiu o comando da equipe brasileira, Leão se viu preterido nas escalações do novo técnico. De titular absoluto até o fim de 1979, com Cláudio Coutinho, jamais conseguiu encabeçar a lista de titulares, enquanto Valdir Peres, João Leite e Raul Plassmann, entre outros nomes menos cotados tiveram seus momentos na primeira Era Telê. Leão não. E mesmo tido como o melhor goleiro do país por muitos, acabou ficando de fora daquele time mágico da Copa de 1982, uma mágoa que nem a convocação para a Copa seguinte, com o mesmo Telê, curou.


#07 - Renato Gaúcho

Renato nunca teve muita sorte em Mundiais. Na Itália, em 1990, sob comando de Sebastião Lazaroni, jogou poucos minutos antes do apito final na fatídica partida contra a Argentina, no melhor estilo "resolver aí, meu craque". A maior frustração do carismático jogador, no entanto, aconteceu quatro anos antes, na Copa do México. Considerado uma das peças fundamentais na campanha das Eliminatórias, Renato Gaúcho acabou cortado por um caso de indisciplina que rende até hoje. Com Renato "voando", Telê acabou trocando o polêmico craque pelo jovem Müller, do São Paulo. Acabou por deixar uma ponta de dúvida se a Seleção Brasileira teria sorte melhor naquele mundial.


#06 - Neto

As escolhas de Sebastião Lazaroni para a Copa de 1990 não agradaram aos críticos brasileiros, sobretudo a imprensa paulista. A mídia bandeirante, há algumas décadas com certo poder da barganha na reivindicação de seus prediletos para a posição de goleiro, teve de engolir a seco a convocação dos discutíveis arqueiros Zé Carlos (Flamengo) e Acácio (Vasco da Gama). Para completar a cariocada, o técnico ousou deixar Neto de fora do Mundial da Itália. O meia, que vivia a melhor fase de sua carreira, no Corinthians, viu o sonho de jogar uma Copa do Mundo arruinado com outra convocação bastante discutida do outro lado da Rodovia Dutra, a da promessa vascaína Bismarck, que fez grande Campeonato Brasileiro em 1989, mas jamais alcançou o nível esperado.


#05 - Djalma Dias

Zagueiro de técnica refinada, Djalma Dias roeu o osso, mas ficou de fora na hora do filé. Após participar de todos os jogos das Eliminatórias da Copa de 1970, o pai de Djalminha inexplicavelmente foi cortado da lista de atletas que viajariam ao México. Pior do que ficar de fora pela segunda vez consecutiva de um Mundial, só mesmo constatar que foi relegado por beques bem menos técnicos, como Brito, Joel, Fontana e Baldocchi. Apesar da exuberância do meio-de-campo para frente, Zagallo teve alguns problemas para arrumar a cozinha brasileira, tanto que recorreu ao sempre competente cruzeirense Wilson Piazza, originalmente um volante, para jogar na zaga.


#04 - Ronaldo Nazário

Por mais estranho que possa parecer, Ronaldo Nazário de certa forma também foi um injustiçado em Copas do Mundo. Ainda garoto e jogando uma bola redonda no Cruzeiro, havia algo de supersticioso na convocação daquele menino, que chegava ao seu primeiro Mundial, em 1994, com apenas 17 anos. Quem sabe, tal qual Pelé, na Suécia, não seria o protagonista de uma nova redenção brasileira, que há 24 anos amargava seguidos insucessos? Para desespero dos supersticiosos, Ronaldo não jogou um minuto sequer na Copa dos EUA. Se, na época, Bebeto e Romário eram incontestáveis e insubstituíveis, pouca gente ficou sem entender como até o discutido Paulo Sérgio teve seus minutinhos de bola em jogo naquele Mundial, enquanto o futuro Fenômeno apenas fez turismo na América do Norte.


#03 - Alex

Nome quase certo na convocação dos jogadores que iriam à Copa de 2002, Alex foi inexplicavelmente esquecido por Felipão, técnico parceiro num passado de sucesso no Palmeiras. Rescaldado pela decepção de quatro anos antes, Alex novamente ficou de fora do grupo que iria ao Mundial da Alemanha, após ser figurinha fácil em diversas convocações de Parreira ao longo da preparação daquela equipe. Acabou preterido por Ricardinho, que, apesar de ser um bom jogador, está longe de ser o Zidane que a imprensa tentou por anos a fio fazer acreditar.


#02 - Falcão

Cláudio Coutinho dirigiu a Seleção Brasileira mais confusa da história recente dos Mundiais, em 1978. Um dos ícones do futebol moderno no país, introdutor de uma série de termos e conceitos importados, como overlapping, Método Cooper, ponto futuro e polivalência, Coutinho antagonicamente deixou fora da Copa da Argentina o jogador brasileiro que à época era a mais completa tradução de modernidade: Paulo Roberto Falcão. E, para piorar, trocou a técnica refinada do meio-de-campo do Internacional pelo limitado Chicão. Cada Copa do Mundo tem os craques que merece.


#01 - Ademir da Guia

Dono do meio-de-campo da Academia de Futebol que dominou os gramados no fim da década de 1960, Ademir da Guia sempre foi preterido por diversos técnicos que passaram pela Seleção Brasileira. O jogo mágico do esguio Palmeirense concorreu com jogadores do peso, como Gerson e Rivellino, ao longo dos anos, mas enfim conseguiu uma merecida convocação, para o Mundial de 1974. A participação de Ademir naquela Copa se resumiu a pouco mais de um tempo de jogo, para tristeza dos amantes do bom futebol. À parte os delírios paulistas sobre cariocadas da antiga CBD, a bola saiu perdendo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Memória FC: Zico desmistificado

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Eu poderia gastar algumas linhas rebatendo as injustas acusações contra Zico, de ser pé-frio e jogador de Maracanã, entre outras baboseiras recorrentes de torcedores ressentidos e pseudo-críticos bandeirantes. O camisa 10 da Gávea era gênio. Queiram ou não.

Apesar da genialidade, há muito lero-lero idealista em torno da carreira do Galinho. Sem falar no eterno beija-mão que a imprensa carioca dispensa ao ex-jogador.

Numa homenagem para lá de atrasada, seguem alguns fatos interessantes sobre um dos melhores boleiros de todos os tempos:


Zico em dia de Leandro Amaral
Que me desculpem os botafoguenses, mas há coisas que só acontecem com o América. Zico não defendeu o simpático clube tijucano por muito pouco. Ainda amador, jogando o fino da bola em campeonatos de futebol de salão e soçaite do subúrbio carioca, o futuro ídolo rubro-negro estava apalavrado com a cartolagem americana, após uma partida pelos infantis do clube. Eis que surge o Flamengo atravessando espetacularmente a negociação com o América. O coração rubro-negro do Galinho acabou falando mais forte.



Lusitano, sim; Vascaíno, não
O pai de Zico, o português José Antunes Coimbra, era flamenguista roxo, quase um daqueles torcedores caricatos. Nutria um ódio do Vasco devido a um trauma de juventude. Goleiro do Municipal e tricampeão da Liga Amadora, seu Antunes teve o sonho de defender as cores do Flamengo abortado por um vascaíno. Em tempos que se ganhava nenhuma mariola para jogar futebol, o pai do Galinho tirava o sustento numa padaria. Ao saber do interesse flamenguista naquele promissor goleiro, o dono da padaria, um vascaíno ferrenho, ameaçou-o de demissão. Seu Antunes acabou optando pelo trabalho. Mas a partir daí criou uma cisma peculiar com o time de São Januário. Às provocações sobre como era possível um português ser rubro-negro, José Antunes respondia, "Português é sabão e vascaíno, eu sou lusitano".


Para desespero do pai, Zico, ainda amador, chegou a cogitar a possibilidade de jogar pelo Vasco devido às dificuldades financeiras e geográficas para treinar no Flamengo. Numa época pré-Túnel Rebouças, ir de Quintino à Zona Sul do Rio despendia tempo e dinheiro. O ex-técnico do Galinho nas divisões de base do clube da Gávea, Célio de Souza, ao ser contratado pelo Vasco perguntou se o pupilo mais talentoso tinha interesse em ir para São Januário. Ao saber do convite, o dirigente flamenguista George Helal (aquele das Papeletas Amarelas), passou a bancar do próprio bolso o lanche e a ajuda de custo para o jovem craque.

Zico, o subversivo
Um dos momentos mais nebulosos na carreia de Zico é a não convocação para os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Destaque na campanha do Pré-Olímpico de 1971, na Colômbia, o Galinho acabou ficando de fora da lista de jogadores que iriam à Alemanha. As longas madeixas do jogador não eram bem vistas pelos militares que formavam a comissão técnica da antiga CBD e, para piorar a situação, os primos e um dos irmãos de Zico acabaram presos no DOI-Codi (órgão de repressão da ditadura militar brasileira). Zico pagou o pato e teve a sua maior decepção no esporte, chegando até a cogitar a possibilidade de abandonar o futebol.

Outras histórias saborosas da carreira do Galinho estão no livro Zico - 50 anos de futebol, de Roberto Assaf e Roger Garcia. Leitura recomendadíssima.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Memória FC - Os dez maiores encrenqueiros do futebol brasileiro

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Encrenqueiro. Segundo o dicionário Michaelis, "que, ou aquele que arma encrencas; arengueiro". O futebol brasileiro - cantado em versa e prosa como fábrica de craques - é terreno fértil na produção de primas-donas, que por sua vez servem de adubo na colheita de polêmicas (atividade-fim da imprensa brasilis?). Para o bem ou para o mal, o país contou com diversos fenômenos quando o assunto é polêmica. Algo bem-vindo (ou não) nestes tempos de assessores de imprensa e declarações insípidas. A lista a seguir levou em conta polêmica e relevância futebolística, o que consequentemente deixa de fora figurinhas fáceis como Carlos Alberto e Léo Lima.

#10 - Romário
O Baixinho acabou tendo a sua fama de encrenqueiro injustamente eclipsada pelo talento no trato com a bola. Indisciplinado desde os tempos de juniores, Romário fez um pouco de tudo. Brigas com treinadores, escapadas da concentração, trocas de socos com companheiros de time, adversários e torcedores e sacaneadas homéricas em jornalistas são alguns destaques do vasto currículo do ex-boleiro.


Romário e imprensa espancando o café pequeno



#09 - Reinaldo
Reinaldo ousou ter consciência política durante a última ditadura militar brasileira. A maneira de comemorar seus gols, como um autêntico Pantera Negra, também não era bem vista pela turma da caserna. Como consequência, o atacante foi caçado em campo sob vistas grossas dos árbitros. Após a aposentadoria, o eterno ídolo atleticano continuou frequentando as manchetes - sobretudo as policiais -, com uma condenação, em primeira instância, por tráfico de drogas.

#08 - Mario Sergio
Tido como rancoroso e mau caráter por alguns, Mario Sergio protagonizou um dos maiores escândalos de doping do futebol brasileiro, nos anos 1980. Segundo 
Dunga fontes, o Rei do Gatilho, em sua passagem pelo Internacional, conseguiu que parte do time Colorado tomasse bolinhas antes de uma partida contra o Flamengo. O caso veio à tona depois de o meia ser flagrado no antidoping, em 1984, na melhor fase de sua conturbada carreira, defendendo as cores do Palmeiras.

#07 - Flávio Costa
Existiu um técnico teimoso como Zagallo, brigão como Leão e marrento como Luxemburgo? Para quem passou dos oitenta anos, a resposta é fácil: Flávio Costa. Disciplinador e arrogante, Costa foi responsável pela saída pelos fundos de Gerson, o Canhotinha de Ouro, do Botafogo e pelo afastamento de Dida - ídolo maior de Zico - do Flamengo, entre outras confusões com craques de bola. Na caça às bruxas após a derrota na Copa de 1950, Flávio Costa, comandante da Seleção, acabou levando sua dose de culpa e aos poucos perdeu a relevância no cenário nacional.

#06 - Afonsinho
Provavelmente, Afonsinho é o mais idealista dos encrenqueiros citados. No auge da carreira, exibindo barba, madeixas e opiniões para lá de subversivas na visão de milicos e cartolas, o ex-jogador do Botafogo acabou barrado pelo visual hipponga terceiro-mundista e pela "cabeça pensante" nada bem-vinda nos Anos de Chumbo. Alijado do futebol pelos dirigentes do alvinegro carioca, Afonsinho foi pioneiro nacional na luta contra a Lei do Passe e teve a honra de ser fichado como "comunista" e "subversivo" pelo velho Serviço Nacional de Informações. Um Dom Quixote da bola num período de trevas eternizado na canção "Meio-de-campo", de Gilberto Gil (clássico na voz de Elis Regina).

#05 - Leão
Na contramão de tudo que foi escrito sobre Afonsinho, Leão ousou ser um reacionário de carteirinha dentro da Democracia Corintiana. O goleiro, já habituado ao esquemão militar, não gostava de votar nas decisões do grupo. É claro, há um plus na história: Leão era filiado à Arena - "partido" que servia de sustentação política da última ditadura militar. As encrencas do jogador não param por aí. Na decisão de terceiro lugar da Copa de 1974, contra a Polônia, chegou a dar um tapa na cara do lateral doidão Marinho Chagas, que, de acordo com o goleirão, falhou no decisivo gol de Lato. Essas e outras picuinhas sempre deram o tom na carreira de Leão, que parece não ter mudado muito.

#04 - Serginho Chulapa
O mais notório inimigo de Leão não tinha uma posição política clara. O negócio de Serginho era mesmo porrada (e valia mordida, unhada e puxão de cabelo). Péssimo perdedor, o desengonçado artilheiro chegou a partir para cima dos jornalistas após a derrota na final do Brasileiro de 1983. Para os maldosos, a personalidade de "todo estouradinho" de Chulapa pode ser explicada pelos longos anos de sofrimento com as hemorróidas. O "causo" mais delicioso da carreira de Chulapa aconteceu na decisão do Brasileirão de 1981: Leão, sabendo que o atacante são-paulino estava "armado" com um absorvente interno para conter os sangramentos no ânus, provocou o estouradinho durante os 90 minutos (com direito a xingamentos e chutinhos na bunda). Acabou levando um belo chute no rosto e ganhando um inimigo para toda a vida.



Medo! A Rede Globo tenta transformar Chulapa no inimigo público número um do desporto! Tudo isso com direito a trilha sonora de filme de terror! Ah, o jeitinho global de fazer jornalismo...

#03 - Edmundo
Edmundo é de longe o maior encrenqueiro do futebol brasileiro nos últimos 20 anos. Alternando momentos de animal e bobo da corte, foi protagonista de uma das batalhas campais mais ridículas da história do Morumbi e do nocaute mais vergonhoso do futebol mundial. Graças ao sistema jurídico brasileiro, continua livre após ser condenado por lesão corporal e homicídio culposo, consequência de um acidente automobilístico que tirou a vida de três pessoas, em 1995, no Rio de Janeiro.



Cerdeira dando uma aula de arbitragem

#02 - Heleno de Freitas
Um dos maiores ídolos do futebol brasileiro na primeira metade do século XX, Heleno de Freitas era um encrenqueiro patológico. Artífice de embates com dirigentes, adversários, companheiros e torcedores, nunca mediu palavras e gestos. Chegou a apelidar publicamente o ex-atacante Orlando Pingo de Ouro de "Orlando Pingo de Merda", numa ironia nada sutil. Jogou apenas uma vez no Maracanã, defendendo o América, o suficiente para ser expulso ainda no primeiro tempo e armar uma grande confusão com companheiros de time e jornalistas. Tanta loucura é explicada pela sífilis, que acabou por vitimar o boleiro. Merece todo o nosso respeito pelo simples fato de ter comido Eva Perón no auge do Peronismo.

#01 - Almir Pernambuquinho
"Eu fui um marginal do futebol". A autobiográfica frase de Almir Pernambuquinho resume o que foi o jogador. Com alguns "edmundos" e "simenones" de vantagem, Almir Pernambuquinho foi o grande machão do futebol nacional. Assumiu ter jogado dopado na final do Mundial Interclubes de 1963, contra o Milan, no Maracanã; promoveu uma grande algazarra com o intuito de estragar a festa do único título estadual conquistado pelo Bangu; inutilizou jogadores para o esporte e morreu à bala. A curta vida de Almir Pernambuquinho é uma epopéia trágica que merece ser lida por qualquer amante da bola.

Menção honrosa: PC Caju

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Memória FC - Paulo Valentim

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Nascido no berço da contravenção de Barra do Piraí, município do Sul Fluminense, Paulo Valentim (1932-1984) teve uma rica história dentro e fora dos gramados. Ídolo no Boca Juniors, pouco lembrado pelas torcidas botafoguense e atleticana, o jogador destacava-se pelo apurado faro de gol, boa colocação na pequena área e uma incorrigível vida boêmia.

A atração pela noite e pelo copo foi determinante para que seu pai, Quim Valentim, ex-jogador do Atlético Mineiro e bicheiro maior da cidade barrense, mandasse o filho de mala e cuia rumo a Belo Horizonte. Paulinho, que já chamara atenção jogando pelo Central de Barra do Piraí em amistosos contra equipes de Juiz de Fora, acabou contratado pelo Galo Mineiro. Em Minas Gerais, Paulo Valentim conquistou títulos, marcou gols e arrebatou o coração da prostituta Hilda Furacão - talvez a primeira WAG brasileira.

Hilda Furacão e Paulo Valentim estiveram juntos até a morte. Esperava a Ana Paula Arósio?

O sucesso, no entanto, não foi suficiente para manter o artilheiro no Atlético. Incomodados com a fama de habitué da noite, os dirigentes acabaram negociando o craque com o Botafogo. No alvinegro carioca, Paulo Valentim teve uma passagem marcante, sendo figura principal do título carioca de 1957. O Fluminense, favorito para conquistar a taça naquele ano, acabou caindo ante ao Botafogo, numa espetacular goleada de 6 a 2, com direito a cinco gols de Valentim, para delírio das arquibancadas botafoguenses, devidamente reforçadas por torcedores do Flamengo, Vasco e América - irritadiços com as declarações provocativas de cartolas tricolores. (Sim, o Flamengo já fez parte da torcida arco-íris).



O sucesso no alvinegro resultou numa inevitável - e curta - passagem pela Seleção Brasileira, durante o Campeonato Sul-Americano de 1959, disputado na Argentina. Alternando entre o time titular e o banco de reservas, o atacante marcou três gols na virada brasileira diante do Uruguai, numa partida marcada pela violência, como mandava o receituário dos bons tempos de sangue, suor e futebol. A atuação do brasileiro chamou atenção dos dirigentes do Boca Juniors, que não mediram esforços na aquisição daquele avante brigador, em plena era do "Fútbol Espectáculo", período histórico da década de 1960 marcado pela gastança de dinheiro e importação de craques na Argentina.

O investimento em Valentim valeu a pena. Em quase cinco anos vestindo o manto azul y oro, o boleiro tornou-se o maior artilheiro da história do Superclásico, diante do River Plate, com dez gols. O seu momento de maior destaque na epopéia bostera foi no clássico decisivo de 1962. Faltando apenas uma rodada para terminar o campeonato e com um ponto de desvantagem em relação ao River, o lema para o xeneizes era vencer ou vencer. Tudo corria conforme o script após o gol de pênalti convertido por Valentim, até que, faltando três minutos para o término da partida, o árbitro marca uma penalidade polêmica a favor do River.



Com os jogadores do Boca visivelmente nervosos, Valentim resolveu fazer uma promessa ali mesmo: se o goleiro Antonio Roma defendesse o tiro cobrado pelo brasileiro Delém, faria uma peregrinação da sua casa até a famosa igreja de San Ignacio de Loyola, em Buenos Aires, e daria uma bela quantia em dinheiro (10 mil pesos, na época) ao primeiro miserável que cruzasse o seu caminho. Os deuses do futebol ouviram as preces de Paulinho. Numa defesa tão ou mais polêmica que a marcação da penalidade, o antológico Roma defende o chute de Delém graças a uma adiantada espetacular.



Na manhã seguinte, lá estava Paulo Valentim a cumprir sua promessa. Reconhecido e saudado nas ruas pelos torcedores do Boca, a peregrinação seguia ganhando adesões. Chegando à igreja, saudado e abraçado pelos xeneizes, que enlouquecidos celebravam seu herói, o atacante foi interrompido por uma senhora pobre que esmolava nas proximidades. Sem titubear, Valentim deu um pacote com 10 mil pesos para a pedinte, que, assustada ou não acreditando no presente recebido, simplesmente saiu em fuga com a dinheirama em mãos.

A mística e as glórias, no entanto, não foram suficientes para o jogador ter um doce fim de carreira. Com os anos e o corpo cobrando noitadas e bebedeiras ininterruptas, o fogo do artilheiro foi se apagando até aposentar-se quase anonimamente no México. A vida pós-futebol incluiu um emprego no cais do porto e uma série de insucessos financeiros. Com ajuda de amigos, conseguiu passagens para voltar a Buenos Aires, onde sonhava trabalhar como técnico de futebol. Seis anos após chegar à capital argentina, Valentim sucumbia diante do insucesso e do alcoolismo, em situação de extrema pobreza, em 1984.

Fontes de pesquisa e imagens:

Blog do Roberto Porto (AQUI e AQUI)
Informe Xeneize

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Memória FC: Glórias roubadas (as mentiras sobre a Seleção de 1994)

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A Seleção de 1982 tem muito a ver com aquela que, três Copas mais tarde, conquistou o tetracampeonato nos Estados Unidos. Calma, não falo de aspectos técnicos ou táticos, mas destino. Se a craques do quilate de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Leandro e Júnior, os deuses do futebol reservaram os louros de uma queda tão romântica quanto trágica, aos homens de Parreira nada restou além de uma vitória com glórias roubadas.

O receituário de frases feitas sugere que alguns triunfos resultam em reveses irrecuperáveis; em contrapartida, há derrotas que se configuram em incontestáveis vitórias. Se na Espanha o título não veio, ficou o legado do futebol genuinamente brasileiro. No fim das contas, uma redenção no DNA de um dos mais trágicos capítulos da história do futebol nacional, o Maracanazzo de uma geração. Já do tetra na terra de Hemingway, nada restou. É tratado ainda hoje como um filho bastardo, impuro, não merecedor de reconhecimento. Os tolos que o fazem não conseguem entender que a Copa de 1994 foi uma conquista de homens.

Em 1994, o futebol brasileiro já havia caído em descrédito devido a insucessos e times que não convenceram. Há 24 anos não ganhávamos uma Copa do Mundo, sequer ameaçávamos ganhá-la. Durante mais de duas décadas, todas as Seleções que partiam rumo a um Mundial conviviam com o fantasma do Tri, no México. Era peso demais. O futebol apresentado por Pelé e companhia foi sobrenatural , inigualável . Além disso, os homens de Parreira lutavam contra um país inteiro, contra sua própria nação. Era vencer ou vencer para não ser jogado aos leões na volta pra casa.

Durante o Mundial dos EUA, a Seleção foi massacrada por grande parte da imprensa. O programa Apito Final, exibido pela rede Bandeirantes, concentrava o maior número de detratores da equipe brasileira, como Juarez Suares, Mário Sergio, Luciano do Valle e Datena. As críticas eram carregadas de ranços pessoais. A impressão era de que todos ao redor da mesa estavam ali apenas esperando o fracasso da Seleção para mais uma vez desfilarem os seus achismos infalíveis e as suas verdades perfeitas.




Dunga jogou o fino da bola contra Camarões

Mário Sergio dizia que Dunga estava velho, que o Brasil sempre entraria com um a menos em campo se Dunga fosse titular. A história provou que o Vesgo estava errado: Dunga foi o maior ladrão de bolas daquela Copa e, no jogo contra Camarões, cansou de fazer lançamentos de três dedos (um deles, resultando em gol). No gol de Márcio Santos, o capitão inicia a jogada olhando para um lado e metendo a bola do outro (ironicamente, um lance que sempre caracterizou Mário Sérgio e, depois, Ronaldinho Gaúcho). A verdade do comentarista metido a estrategista veio alguns anos depois: Mário Sergio foi "saído" da Bandeirantes após fazer críticas a Dunga, então contratado para fazer parte do time de comentaristas da emissora.

Juarez Soares após o jogo contra os EUA teve de "esclarecer" algumas críticas feitas por companheiros de profissão de outros veículos, que disseram que o velho China, após o sofrido gol brasileiro, deu um murro na bancada de imprensa e ficou de cara amarrada até o apito final. Passou a impressão de que torcia por um insucesso da Seleção. As críticas foram prontamente rechaçadas pelo comentarista, que se defendeu afirmando que o gesto foi apenas um desabafo. Alguns anos depois, após ficar quietinho durante os festejos do título, Juarez Soares voltou a atacar a equipe de 1994, afirmando que, na verdade, a Itália perdeu o título.

O rancor em rede nacional não deu às caras somente na emissora dos Saad. No SBT, o narrador Luiz Alfredo foi protagonista de um dos momentos mais constrangedores da televisão, na mesa-redonda do canal do Homem do Baú. Confundindo opinião com falta de respeito, Alfredo falou uma série de impropérios de Zagallo, diante de um Carlos Alberto Torres, que permaneceu calado, sem uma única palavra em defesa de seu ex-técnico, que, naquela Copa, já era um senhor de idade.




A bomba santa de Branco calou os críticos

Não foram somente Dunga e Zagallo os maiores criticados naquela campanha. Branco e Taffarel foram atacados sem dó. Hoje, não dá para imaginar a vitória sem esses jogadores na campanha. Mário Sergio, quando Branco teve de substituir Leonardo, no jogo contra a Holanda, afirmava que o veterano lateral tomaria um sufoco do jovem ponta holandês Marc Overmars. Naquela partida, Branco marcou muito bem Overmars e ainda cavou a falta que deu origem ao seu golaço dando um "pescoção" no holandês. Uma vitória que teve de ser engolida a seco.

Por outro lado, Mazinho e Raí, queridinhos dos críticos da Bandeirantes decepcionaram naquela Copa. Mazinho, por sinal, foi protagonista de lances bisonhos, como furadas de bola absurdas. Os únicos poupados eram Bebeto e Romário. Entretanto, quatro anos depois, Bebeto foi vítima dos mesmos especialistas que tentavam convencer um país inteiro que Denilson deveria entrar no seu lugar no time titular.

Não cabe aqui analisar todos os jogos da Seleção na campanha do Tetra. Seria desonestidade ou atestado de insanidade dizer que aquela equipe jogou um futebol refinado. A Argentina de Maradona foi uma mentira. Goleou uma Grécia indigente e passou sufoco contra a inexperiente Nigéria. Depois, deitaram em cima do doping de Maradona para fantasiarem mais um título perdido. A verdade é que, mesmo com as glórias roubadas, mesmo com a final nos pênaltis, não houve outra equipe naquele Mundial que tenha apresentado melhor jogo. Tanto em 1982 quanto em 1994, as seleções carregarão para sempre o espectro da injustiça.